Sábado, 24 de Maio de 2008

[46] CULT. COMBIN. (7)

Desta vez, embora seja de novo sobre a C.C., limito-me a citar :

 

«Trabalhar um conceito, é fazer variar a sua extensão e a sua compreensão, generalizá-lo pela incorporação de traços de excepção, exportá-lo para fora da sua região de origem, tomá-lo como modelo ou inversamente procurar um modelo para ele, em poucas palavras conferir-lhe progressivamente, por transformações regradas, a função de uma forma.»

 

Georges CANGUILHEM

 

publicado por Transdisciplinar às 20:07
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[45] Morin e a linguagem : fragmentos

È necessário pensar cicularmente que a sociedade faz a linguagem que faz a sociedade, que o homem faz a linguagem que faz o homem, que o homem fala a linguagem que o fala.

(---)

A neuro-linguística, a neuro-psicologia (...), a socio-linguística mostram-nos a profundidade, a radicalidade, a complexidade do laço entre a linguagem, o aparelho neuro-cerebral, o psiquismo humano, a cultura, a sociedade...

       A linguagem depende das interacções entre indivíduos, as quais dependem da linguagem. Ela depende das mentes humanas, as quais dependem dela para emergir enquanto espíritos. É portanto necessariamente que a linguagem deve ser concebida ao mesmo tempo como autónoma e dependente.

(...)

(...) as palavras usuais são possémicas, isto é comportam na sua maioria uma pluralidade de sentidos diferentes que se encavalitam produzindo como franjas de interferência (metáfora que nos reenvia de novo ao holograma) ; segundo o contexto (da situação, do discurso, da frase), um dos seus sentidos exclui os outros e vem impor-se no enunciado ; uma vez mais, é o todo que contribui para dar sentido à parte, a qual contribui para dar sentido ao todo.

(...)

A linguagem está em nós e nós estamos na linguagem. Nós fazemos a linguagem que nos faz. Nós estamos, em e pela linguagem, abertos pelas palavras, fechados nas palavras, abertos sobre outrem (comunicação), fechados sobre o outro (mentira, erro), abertos sobre as ideias, encerrados nas ideias, abertos sobre o mundo,fechados ao mundo. Encontramos o paradoxo cognitivo maior : estamos fechados pelo que nos abre e abertos pelo que nos fecha.

 

 

(Edgar MORIN, La Méthode, 4. Les Idées.)

publicado por Transdisciplinar às 00:21
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Quarta-feira, 21 de Maio de 2008

[44] Ainda sobre o Dharma (5)

 

    Resolvi publicar este post para chamar a atenção para a existência do Instituto Mind and Life. Foi fundado em 1988, para assegurar a organização regular de encontros entre o Dalai Lama e cientistas ocidentais. De resto, esses encontros já vinham tendo lugar, mas um pouco ao sabor das circunstâncias. Assim, alguns dos participantes resolveram, sempre com o acordo do Dalai Lama, criar o que começou por ser o projecto Mind and Life.

       O primeiro encontro decorreu em Outubro de 1987, em Dharamsala, na Índia (cidade onde o Dalai Lama tem residência desde que se exilou). Os resultados foram de tal forma encorajadores que se partiu para a criação do Instituto.

 

 

 

        Embora tenham sido muitas as colaborações havidas para essa criação, existem dois nomes que é indispensável pôr em realce. Um é o do americano R. Adam Engle. Ele foi o primeiro Presidente do Instituto e teve a seu cargo a complicada organização logística dos encontros. O outro é o do chileno Francisco J. Varela. Doutorado em Biologia por Harvard, especializado em neurobiologia e epistemologia, trabalhando em Paris (C.N.R.S.), coube-lhe a coordenação científica dos trabalhos. Muito conhecido nos meios científicos por causa das suas publicações e dispondo de muitos contactos em várias áreas do conhecimento, ele trabalhou afincadamente para que os encontros Mind and Life fossem um sucesso, bem demonstrado pelos livros a que deram origem. Infelizmente faleceu há pouco, precocemente.

       O nome do Instituto foi escolhido cuidadosamente para designar bem a interface, o mais frutuosa possível, entre a ciência ocidental e a tradição búdica. Dada a sua natureza, não é de espantar que os primeiros encontros recoressem sobretudo a especialistas das neurociências (o "nosso" António Damásio participou num deles) e das chamadas ciências cognitivas.  Pouco a pouco os temas foram mudando e, a partir de certa altura, além dos filósofos, dos psicólogos, dos psicanalistas, dos linguistas ou dos antropólogos, encontravam-se também especialistas em astrofísica, em cosmologia ou em física quântica. No fundo, nenhuma área é dispensável quando, como disse o Dalai Lama num dos encontros, «(...) nós não aderimos ao sentido literal das palavras de Buda quando elas são refutáveis por uma prova válida».

       Aqui convirá apontar duas precisões semânticas : a primeira é búdica, a segunda é ocidental. A búdica tem a ver com a palavra , em sânscrito, dharma. O termo é altamente polissémico : tanto significa o ensinamento (o Dharma do Buda), como o conhecimento ou a sabedoria, como ainda a via, o caminho, para os alcançar. E poderíamos continuar...

       A segunda remete para um problema relativo ao francês. Com efeito, eles não têm substantivo para o nosso mente (ou o inglês mind). O equivalente francês é esprit. Existe o adjectivo mental (que, por vezes, é substantivado), mas o que é corrente é usarem a palavra esprit. Assim não podem distinguir entre mente e espírito. O que, quando está em causa o budismo, é particularmente lastimável. Voltando a citar um Lama (que, entretanto, foi "promovido" a Rimpoché -- para quem sabe o que isto significa...) : « O budismo não é materialista nem espiritulista, é realista e experimental ».

       Completo com : no budismo não há credo, nem dogma, nem Deus.

 

 

 

publicado por Transdisciplinar às 01:39
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Quinta-feira, 1 de Maio de 2008

[33] Compreensão e conceptualização

(Este post é a resposta a uma "amiga" que me perguntou como encontrar termos para designar compreensões novas.)

 

 

    A questão em causa é : perante uma nova compreensão de um problema ou de uma situação, o que  fazer para exprimi-la e transmiti-la de forma  correcta.

    O repertório lexical tem os seus limites próprios, nomeadamente no campo científico (em que não existe a liberdade poética). O que, diga-se, não quer dizer, bem pelo contrário, que não haja lugar para a imaginação. Esta é até bem necessária. Sem ela não haveria revoluções científicas nem sequer investigação digna desse nome (apenas meras aplicações).

    Mas voltemos à questão lexical. Ela não é fundamental para  a compreensão em si mesma : existe conhecimento pré-verbal (e, até, comunicação não verbal). Mas a linguagem  é muito importante para a transmissão do conhecimento. E aí entram em jogo as articulações entre significantes e significados (deixemos, por agora, de lado os referentes). Essas articulações são mais complexas do que à primeira     vista  possa parecer. Para voltar ao exemplo da poesia : ela " brinca " permanentemente com elas. Coisa que  o cientista não pode fazer. Isto é, pode (por exemplo o meu mestre Morin passa a vida a criar jogos lexicais), mas dentro dos  limites que a comunidade científica define. :

    Retomemos o problema que a minha amiga pôs . Pode ser reformulado da seguinte forma : o que ela pretende é encontrar um significante -- seja ele  uma simples  palavra, ou um sintagma mais complexo --  que corresponda ao significado  (a compreensão nova) a que ela acedeu. Ora esta operação remete para duas questões que me têm acompanhado ao longo de toda a minha carreira de investigador :  a da adequação e a da pertinência.

    Ou seja, no caso vertente : a expressão que ela escolher deve ser adequada ao "objecto" em causa (i.e. deve denotá-lo/conotá-lo   correctamente ) e pertinente, no sentido de corresponder às exigências comunicacionais da sua transmissão ou, por outras palavras,  possuir  valor  heurístico  suficiente -- mas isso levar-nos-ia para debates semânticos que seria despropositado estar a ter aqui.

    Da mesma forma, não coloco  questões de hermenêutica que se podem referir a propósito da adequação. Deixo só esta pista no ar. Como não me alongo sobre os problemas da validade  interna (que dizem só respeito à consistência do discurso) ou da validade externa (relações entre o conhecimento e o real) ; estes últimos ficam parcialmente resolvidos se se tratar acertadamente a problemática da adequação.

    Com tudo isto, acho que acabei por não responder às perguntas concretas que a  amiga me fazia !  Irritado com o computador,  acabei por fazer o gosto ao meu dedo conceptual... Mas ainda lhe deixo algumas achegas. Se quiser traduzir alguma palavra estrangeira faça-o. Ou então use mesmo a  estrangeira, nomeadamente se for numa língua franca como é hoje o inglês. Se quiser usar um sintagma mais complicado, faça-o. Mas aí atenção : se possível, evite mais de duas palavras (p.e. um substantivo e um adjectivo) ou então utilize hifenização ; ou utilize prefixos ou sufixos.

    Mas, por favor, não esqueça : adequação e pertinência !

    E por aqui me fico.

 


 

 

 

 

  


sinto-me:
publicado por Transdisciplinar às 02:54
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