Terça-feira, 2 de Dezembro de 2008

{145} Dharma (10)

O meu último posts sobre o dharma  foi o {128}, de 7 de Novembro. Vai sendo tempo de voltar ao tema. Para o fazer vou simplesmente traduzir uma nota de rodapé dum texto do Lama Denys Rimpoché, que esclarece uma questão frequentemente colocada.

 

A palavra "budismo", inventada pelos indianistas, só apareceu por volta de 1825. O sufixo "-ismo" situa o ensinamento do Buda numa perspectiva teológica, metafísica ou filosófica, sistemática e dogmática que não é de todo a do seu espírito e da sua natureza. A via do Buda traça os contornos de uma "ciência" do espírito [mente] que engloba características humanas e nomeadamente as suas preocupações religiosas. A palavra  dharma tem um emprego mais apropriado uma vez que designa habitualmente o ensinamento do Buda, quer dizer o estudo da realidade essencial das coisas e dos seres, sendo entendido que o sentido  fundamental deste termo significa "realidade" ou "o que é".

publicado por Transdisciplinar às 16:58
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Terça-feira, 2 de Setembro de 2008

[99] Para WOLKENGEDANKEN e... (Cont.) (Dharma - 8)

A Wolkengedanken está com dificuldades de tempo para me mandar um e-mail que falta, mas entretanto já escreveu um post, de resposta ao meu anterior, no blog dela (repito : quem quiser tem o respectivo link na margem esquerda deste). De modo que resolvi começar já a responder (salvaguardando as hipóteses de alterar ou acrescentar quando me parecer apropriado).  

Começo pelo fim (até porque está em maiúsculas...). Acho que cais na esparrela cartesiana/ocidental de pensar em termos de ou/ou. Ora a sabedoria leva-nos a pensar em termos de e/e. Nem calculas a quantidade de falsos dllemas que se resolvem dessa forma ! E é tão simples ! Há tempos para... e tempos para...

Quanto à filosofia versus religião, se afinal para ti tanto faz então não há mais nada a dizer (mas mantenho o que escrevi...). Registo que aceitas o "religare".

A "atenção", o concentrar-se no presente : com certeza. Desde que...; mas tu sabes !

A meditação : como dizes, "a fantástica dignidade em aceitar com carinho a própria forma de ser, de pensar e de sentir..." -- é isso, e tudo o que acrescentas a esse respeito está certo ! Dizes que náo pretendes que já consegues, que não é fácil, etc.. Tudo bem ! Como dizes : "Mas vejo o caminho ! " , É o que importa !

Quanto ao resto : já te respondi com a alternativa ou/ou, e/e.

Vou já publicar isto, assim mesmo (e continuo à espera do e-mail...)

:))

sinto-me: Aliviado
publicado por Transdisciplinar às 16:44
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Sexta-feira, 29 de Agosto de 2008

[98] Para WOLKENGEDANKEN e todos os interessados na matéria... (Dharma - 7)

Aviso à navegação : quem quiser seguir este "folhetim" terá que saltar entre este blog e o francês -- ver post [48] (mas como já veritiquei, pelo contador por países, que no meu blog francês tenho mais visitas de portugueses que de franceses, isso não deve constituir dificuldade de maior). E quem quiser seguir mesmo, terá também que ir ao blog de Wolkengedanken, o que será fácil recorrendo ao respectivo link na lista de links de blogs deste mesmo.

 

Indo à matéria.

Pelos vistos, o que começou por ser um percalço ( não conseguir escrever um comentário sem o apagar e, daí, escrever um post) tornou-se um modo. Pois que assim seja. O que começou como uma conversa a dois torna-se uma troca de impressões pública. Tudo bem !

 

Começando pelo livro : é esse mesmo. Até a capa tem o mesmo aspecto gráfico !

Quanto ao outro : trata-se de uma tradução do tibetano, mas a versão que eu tenho foi traduzida do americano. O título completo é : The Tibetan Book of the Dead ; the Great Liberation through Hearing in the Bardo.

Mas acho que o mais importante é mesmo aquele que tu tens.

 

Voltando ao tema filosofia versus religião, remeto-te de novo para o Lama Denys (post [21] do bl. fr.). No que me toca, foi fundamental a afirmação . "Não há credo, nem há dogma, nem há Deus". Ou seja , nada a ver com as três religiões do livro (ou reveladas). Mas tenho em conta a origem etimológica do termo : religare (que eu prefiro usar com traço de união : re-ligar). Neste momento, em que nem sequer nos conhecemos, o que é que me liga a ti : é o budismo (haverá outros aspectos de entendimento, comunicação de inconsciente a inconsciente, sei lá...). Mas o budismo é a nossa re-ligião/ligação.

 

O que é para mim : foi um encontro comigo mesmo. Foi o resultado, ou o termo, de uma "busca" que resultou de uma "crise" (tem que ser entre aspas, porque todos os termos são maus...). Quando "encontrei" o budismo (detesto os ismos, prefiro chamar-me búdico...) senti que toda a vida tinha sido búdico sem o saber ! E foi muito naturalmente que dei os passos seguintes (que creio que já te referi).

_________________________________________________________

Vou voltar ao teu post, para ver se deixei escapar alguma coisa, Até já...

________________________________________________________

 

O intervalo foi maior do que o que pensava. Entretanto meteu-se ver o teu novo post e comentá-lo. E depois foi o jantar e um pouco de telejornal. E mais isto e aquilo... Com a diferença horária entre a Áustria e Portugal, se calhar já não lês isto hoje. O que me chateia porque fico em pulgas para ver a tua reacção...

 

Creio que me facilitou considerar-me búdico o nunca ter sido católico. O que náo é muito usual num país de tradição e predominância católicas. Mas foi uma das minhas heranças paternas (a outra foi a política, onde, com as devidas adaptações dos tempos, guardo as tradições paternas -- ambos fomos presos, etc.,etc.). De resto -- é engraçado -- a minha total ausência de sentimento religioso facilita-me as relações com os católicos , mais até do que com os ex-católicos, porque não tenho nenhum passado de que tenha que me libertar.

 

Voltando à tua questão básica : se me perguntares se o budismo é sobretudo uma religião ou uma filosofia, a minha resposta é : é sobretudo uma filosofia de vida, uma sabedoria (termo de que gosto muito).

 

E com isto creio ter respondido a todas as tuas questões. Rezo ao Senhor (valha-me Deus...) para que ainda leias isto hoie !

 

:))))))))))))))))))))   Zé-Carlos

 

sinto-me: Com o "dever" cumprido
publicado por Transdisciplinar às 23:43
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Domingo, 24 de Agosto de 2008

[95] Voltando ao Dharma (6)

Volto de "férias" e volto ao Dharma. Desta vez para citar Chögyam Trungpa, um dos grandes mestres budistas no Ocidente. E, desta vez, em honra da minha amiga Wolkengedanken, que tanto gosta dele que usa uma frase sua em exergo do seu blog.

 

De facto, para um verdadeiro adepto do tantra, a compreensão da viva energia do cosmos em termos de estruturas, formas e cores não é uma questão de imaginação ou de alucinação. É real. Assemelha-se a uma pessoa que escuta uma música de tal forma emocionante que adquire quase um carácter plástico. O som torna-se quase um objecto sólido, uma cor ou uma forma. Quando nos tornamos capazes de ver as energias do universo tal como elas são, formas cores e estruturas apresentam-se por si próprias, e a simbolização aflora. Tal é o sentido do mahamudra, que significa «grande símbolo». O inteiro universo é símbolo, não no sentido de um sinal que representa outra coisa que aquilo que ele é, mas porque as qualidades dos fenómenos  tais como eles são se manifestam aí da maneira mais viva.

 

E agora um outro excerto de que gosto muito:

 

Se a relação de uma pessoa com o espaço está correctamente desenvolvida, correctamente percebida, não existe a menor hesitação. Trata-se de se tornar uno com as emoções.

 

 

(Chögyan TRUNGPA - Le Mythe de la liberté et la Voie de la méditation. Paris, Seuil «Points Sagesses», 1979)

 

publicado por Transdisciplinar às 18:15
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Sexta-feira, 18 de Julho de 2008

[78] Voltando ao Dharma (5)

 

Tenho desleixado muito o Dharma, aqui. É a altura de o retomar.

Vou servir-me da parte de perguntas e respostas dum ensinamento dado, na Sorbonne, pelo Lama que actualmente é designado por Lama Denys Rimpoché. Assim, no que se segue, P designa uma pergunta e L anuncia a resposta.

A sessão de que extraio estes excertos teve por título "O Dharma do Buda, uma via de amor e de conhecimento".

 

________________________________________________

 

P : O budismo é uma filosofia ou uma religião ?

 

L : Isso depende das definições que damos aos termos filosofia e religiáo. O que entende por religião ?

 

P : A religião é geralmente fundada sobre um conjunto de crenças, de dogmas e de formas que mantêm uma relação com uma pessoa -- seja esta revelada ou imaginada -- enquanto que uma filosofia parte dum raciocínio, duma observação e daí deduz um comportamento, um caminho. Neste caso, não se lhe chama religião.

 

 

L :  Segundo a sua definição, responderei sem ambiguidade que o budismo não é uma religião, é uma filosofia.

 

P    :  É exactamente o que eu pensava !

 

 

 L :  No entanto, o problema é um pouco mais complexo. A definição que dá da religião é, em minha opinião, uma definição teísta restrita. Se se entender religião no sentido etimológico de o que nos une, o budismo é uma via que nos liga à natureza pura da mente ou, numa formulação diferente, o que nos liga à realidade essencial. Se o entendermos assim, é uma religião : é uma questão de definição.

 

P :  Qual é a definição da espiritualidade no budismo ?

 

 

 L  :  O termo espiritualidade não é verdadeiramente uma expressão tradicional do  dharma : não existe nem em sânscrito nem em tibetano. É de facto uma noção muito ocidental. Mas para responder ao espírito da sua pergunta, a atitude espiritual, na perspectiva budista, é a dum trabalho que se faz sobre si mesmo a partir das suas experiências e das situações com que nos defrontamos -- trabalho que permite eliminar todas as formas de condicionamentos, de ilusões e de sofrimentos do espírito egocentrado. A espiritulidade é a saída da confusão do ego.

 

 ________________________________________-

 

 P.S. -- Desculpem o desconchavo da impressão. O computador hoje, mais ainda do que habitualmente, teimou em não me obedecer. Para não ficarmos todos a ver navios, nem eu perder mais umas horas com ajustamentos, vai assim mesmo. Desculpem...

 

publicado por Transdisciplinar às 05:31
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Sábado, 14 de Junho de 2008

[63] Ainda o Dharma (10)

       Com o balanço que levo, aqui vai mais uma (desta vez curta) citação. Sempre de Pema Crödrön.

 

       (...) o dharma e a nossa vida são uma só e a mesma coisa.

       (...)«Sejamos abertos e aceitemos todas as situações e todos os seres.»

       (...) o dharma não vos diz nunca o que é verdadeiro e o que é falso. Encoraja-vos somente a descobri-lo por vossa conta e risco.(...)

       O dharma que é ensinado e o dharma que é vivido são descrições da maneira como se deve viver e utilizar a sua vida para se despertar em vez de se adormecer. E se escolhermos consagrar o resto da nossa vida a tentar encontrar o que despertado quer dizer e o que adormecido quer dizer, penso que poderemos atingir o despertar.

 

 

publicado por Transdisciplinar às 15:10
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[62] Ainda sobre o Dharma (9)

    Ontem estava imparável. Foram 3 vídeos [ que me deram um trabalhão, mais à equipa do SAPO ] e depois retomei Pema Chödrön. Mas só hoje acabei...

     Como prometido, vou tratar do tema "tomar refúgio".

 

       Hoje vou falar do refúgio nas três jóias -- o Buda, o dharma e a sangha -- e do que isso significa verdadeiramente.

       [ Há uma divergência entre os diversos autores. Há quem escreva o sangha e quem prefira a sangha. Em inglês, como é óbvio, o problema não se põe. Mas como estou a traduzir do francês -- e tenho já escolhidos, para citar, outros textos franceses -- a questão coloca-se. Vou seguir o critério de usar a opção da versão que, em cada momento, esteja a citar, embora pessoalmente prefira a, já que a tradução mais simples do sânscrito seja a comunidade. ]

       (...)Pensei sempre que a expressão «procurar refúgio» era muito surpreendente porque tem qualquer coisa de téista, de dualista, chama uma dependência : «procurar refúgio» junto de qualquer coisa. (...)

[Ora] a ideia de base do refúgio é que entre o nascimento e a morte estamos sós. Por conseguinte : procurar refúgio  no Buda, no dharma e na sangha não significa que encontraremos consolação neles, como uma criança a encontraria em papá-mamã ; é antes a expressão fundamental duma aspiração para saltar do ninho, quer nos sintamos prontos a fazê-lo quer não, a transpor os seus rituais de passagem e a ser um adulto que não tem necessidade de agarrar a mão duma outra pessoa. (...)

       (...) O facto de procurar refúgio é o meio pelo qual começamos a cultivar a abertura e a bondade que nos permitem de ser cada vez mais autónomos.

       (...) Noutros termos, o único verdadeiro obstáculo é a ignorância (...) a recusa de olhar o que fica em suspenso.

       (...) não falamos de encontrar consolação no Buda ,o dharma e a sangha. (:::) O Buda é o despertado, e nós também somos o Buda. É simples. Nós somos o Buda. (...)  Eis o que significa ser um ser humano (...).

       Tradicionalmente, procurar refúgio no dharma, é encontrar refúgio nos ensinamentos do Buda..Ora bem, os ensinamentos do Buda dizem : Largue-de-mão e abra-se ao seu mundo.(...) Numa perspectiva alargada, o dharma significa também toda a sua vida. (...) Aplicamo-los [ os ensinamentos do Buda ] na maneira de entrar em relação com outrem, nas situações da vida, na sua relação com os nossos pensamentos, as nossas emoções. (...).

       Procurar refúgio na sangha significa procurar refúgio na fraternidade (que compreende tanto as mulheres como os homens) daqueles que se empenharam em retirar a sua "armadura" [que se entreajudam para o fazer], abstendo-se de encorejar a sua fraqueza ou a sua tendência a conservá-la.

       Prrocurar refúgio nas três jóias não tem nada a ver com refugiar-se, no sentido corrente do termo. (...).

       A prática quotidiana consiste simplesmente em fazer nascer uma aceitação completa de todas as situações e emoções e de todos os seres, assim como uma abertura total a tudo isto ; trata-se de fazer a experiência de todas as coisas totalmente, sem reservas nem bloqueamentos, de modo que não nos retiramos, não nos centramos nunca sobre nós próprios,

        É por esta razão que praticamos.

    

publicado por Transdisciplinar às 13:11
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Quinta-feira, 12 de Junho de 2008

[58] Ainda sobre o Dharma (8)

 

       Continuo com Pema  Chödrön. 

 

       Um poema de Trungpa Rinpoché (...) diz mais ou menos isto : « O  budismo não vos diz o que é falso e o que é verdadeiro, mas encoraja-vos a encontrá-lo por vós próprios. Aprender a não ser nem demasiado tenso nem demasiado relachado é uma viagem pessoal no decurso da qual se descobre a maneira de encontrar o nosso próprio equilíbrio.(...)».

       Adoptar pontos de vista extremos é uma experiência muito comum ; e não é frequente que se encontre o meio-termo.

        (...) A vida é uma viagem feita de encontros incessantes com os nossos limites..

 

       Esta manhã vou falar-vos do tonglen, a prática que consiste em «dar e receber». (...) Quando se faz o tonglen, convida-se o sofrimento. É o que nos abre os olhos (...) : ver o sofrimento, ver o prazer, tudo ver com doçura e precisão, sem fazer julgamentos, sem nada afastar, tornar-se mais receptivo.(...) Fazendo esta prática despertamos o nosso coração e despertamos a nossa coragem.Quando digo «despertar o nosso coração», entendo que temos a vontade de não cobrir a parte mais terna de nós próprios.

        A bodhicitta caracteriza-se pela doçura, a precisão, a abertura, a capacidade de simplesmente largar-de-mão e de se abrir. O tonglen tem por objecto específico despertar ou cultivar a bodhicitta, despertar o coração ou cultivar o coração corajoso. É como regar uma semente que pode florescer.(...) O que se passa verdadeiramente, é que o que estava lá desde sempre é descoberto. Praticar o tonglen varre para longe a poeira que recobria o tesouro que estava lá desde sempre.(...) Toda a gente tem isso, mas nem toda a gente tem a coragem de o fazer amadurecer.(...) Fazer o tonglen é um movimento para a maturação da nossa bodhicitta, para a nossa felicidade e para a dos outros.(...).

       Tudo aquilo de que necessitamos para fazer o tonglen é ter feito a experiência do sofrimento e a da felicidade.

 

(Segue-se a explicação da técnica propriamente dita das etapas da prática do tonglen. Está fora de questão expô-la aqui.)

 

O capítulo seguinte  é todo ele dedicado ao "tomar refúgio" nas chamadas três jóias. No post anterior (da série) já lhe fiz referência, a propósito do nome tibetano de Pema Chödrön.`É suficientemente importante  para lhe dedicar um post próprio. De modo que, por agora, fico-me por aqui. 

 

      

publicado por Transdisciplinar às 11:31
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Quarta-feira, 11 de Junho de 2008

[56] Ainda sobre o Dharma (7)

       No meu último post (Domingo) referi que tinha andado à procura de textos para citar nesta série. Sem sucesso. Não encontrava nada que me parecesse divulgável. Na sequência desse post uma das minhas "amigas" incitou-me a não desistir de publicar sobre o Dharma. De modo que meti-me ao trabalho. Só que mudei de abordagem. No Domingo tinha andado às voltas com três livros de um grande Rimpoché (à letra : "extraordinariamente precioso" -- é um título honorifico concedido pelos seus pares aos lamas que se distinguem pela sua grande sabedoria). Este lama, Chögyam Trungpa, é muito conhecido por ter sido um dos grandes responsáveis pela difusão do budismo tibetano no Ocidente. Por isso  o escolhi.  Mas daí a ser citável para mentes desprevenidas vai uma grande distância.

       A mudança consistiu em ler atentamente (já o tinha percorrido um tanto distraidamente, como vi pelas muito poucas passagens sublinhadas) um livro de uma monja americana [que foi casada duas vezes antes de se tornar monja e é mãe de dois filhos] . E encontrei muito material citável. Nem sequer o vou "esgotar" hoje -- vou só dar uma amostra.

       Ela chama-se Pema Chödrön. É o seu nome tibetano, que lhe foi dado quando ela "tomou refúgio" e que, portanto, ela usa ao esrever sobre budismo [ De resto o mesmo fez ontem a nossa monja Tsering Baldron quando interveio no programa da SIC-Mulher sobre budismo.] ["Tomar refúgio" é considerado como um segundo nascimento, a ponto de poder ser comemorado como um aniversário].

        O livro tem um título interessante : "Entrar em amizade consigo mesmo" e, como sub-título : "Dizer sim à vida, reconciliar-se consigo mesmo e com o mundo", [Só o título já é todo um programa.] Vou citá-lo a partir da tradução francesa, porque é a versão que tenho.

       Com tantos preliminares. e para não maçar muito o leitor, já não fica muito espaço para citações hoje, Mas,de qualquer forma, aqui fica uma amostra. Se as reacções forem favoráveis continuarei.

 

       (...) Além de descobrir a nossa verdadeira natureza, aprendemos também a conhecer os outros. (...) O que é preciso reter é que a nossa verdadeira natureza não é um ideal ao qual nós devemos aspirar, É a pessoa que nós somos agora e é com ela que nós podemos entrar em amizade e celebrar.

       Não existe nem inferno nem paraíso fora da maneira como entramos em relação com o nosso mundo. (...) O nosso trabalho na vida é de despertarmos, de deixar as coisas que entram no círculo despertarem-nos mais do que adormecer-nos. O único meio de chegarmos aí, é abrirmo-nos, ser curiosos e desenvolver uma espécie de sentimento de simpatia em relação a tudo o que acontece, para poder conhecer a sua natureza e daí tirar um ensinamento.

       (...) Chegamos então ao mais interessante : como fazer ? (...) O mais difícil e o mais corajoso (...) é observar de maneira contínua as suas próprias crenças, directamente, com honestidade e clareza, e depois ir mais longe. Isto exige muito coração e benevolência. É necessário ser capaz de tocar e de conhecer o coração da sua experiência, sem rudeza e sem fazer nenhum julgamento. (...) ver o que é, Reconhecê-lo sem o julgar bem ou mal. Largar de mão e voltar ao instante presente.(...)É uma ocasião de ver que nos agarramos à nossa interpretação da realidade(...) nem mais nem menos : somente a nossa própria interpretação da realidade.

 

       Creio que já chega , por hoje, Continuarei (ou não...).

 

publicado por Transdisciplinar às 16:31
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Domingo, 8 de Junho de 2008

[55] Ainda vagueando...

O meu computador só me dá chatices. Hoje, para variar, não me deixa escolher nem o tipo nem o tamanho das letras. Mesmo assim vou continuar. Sairá como calhar.

 

O "Ainda" do título tem um motivo. É que pensava retomar a série "Ainda sobre o Dharma...". Para isso gastei uma boa parte do dia a reler (é mais fácil, já estão anotados) e a ler novos textos búdicos, para escolher citações que fossem apropriadas. Mas é difícil. Li muita coisa que me interessou (ou já me tinha interessado), mas daí a ser adequado para citar aqui vai uma grande distância. Devo ter escolhido mal os livros. Talvez tenha que ir procurar os que consultei no início da minha "busca". Mas como já se passaram uns bons anos, é capaz de não ser fácil.

 

Quanto ao "vagueando", o anterior saíu-me caro. Ontem estive tão zonzo que nem sequer escrevi aqui. De modo que deitei-me cedo (o que é muito raro) -- mas hoje levantei-me também cedo (o que é ainda mais raro...). Aproveitei para pôr em dia algumas respostas a comentários e fazer mais alguns deles. Além das leituras que já referi. Se calhar devia fazer isto (o levantar cedo) mais vezes.

 

Quem anda contentíssimo com a política (americana) é o meu filho, que é um obamista convicto (resultado de viver 22 anos em New York). O "Público" de 6 de Março até, a esse propósito, lhe dedicou a capa e duas páginas do Suplemento (com honras de chamada na 1ª página do jornal). Eu tenho andado um bocado mais partilhado entre a minha costela anti-racista e a minha costela feminista. Mas Hillary ter ido às primárias já é muito importante. Vamos agora ver quem é que Obama escolhe para Vice-Presidente.

 

Por falar no meu filho e em política, e por passarem os 50 anos sobre as eleições de 1958, o meu filho, que está a trabalhar com o neto-biógrafo do General num projecto cinematográfico, encontrou, no material de arquivo, uma fotografia minha a distribuir votos para o candidato Delgado no dia das eleições (também as coloquei, noutros dias, em caixas do correio, mas aí era mais discreto). Estava. com o carro do meu pai, a 100 metros dum local de voto (para quem não saiba, eram os eleitores que tinham de levar o boletim do candidato), com um grande cartaz, a dar votos às pessoas que os queriam e não os tinham.

Não vejo quem possa ter tirado essa fotografia a não ser a PIDE. Vá lá que, nesse dia, não fui lá parar. O mais longe que a polícia fez, foi levar-me até á esquadra da PSP mais próxima, onde tiveram que render-se à evidência, depois de uns telefonemas, de que eu estava dentro da legalidade. E lá tiveram que deixar-me voltar à minha distribuição.

 

E, por hoje, chega.

 

publicado por Transdisciplinar às 19:41
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Segunda-feira, 2 de Junho de 2008

[50] Continuando à balda...

A julgar  pelos   comentários, isto de andar "à balda" resulta... Estou noutra noitada (neste momento são 5,30 mais coisa menos coisa).

Mas hoje ando a remoer numa ideia. Em termos imediatos resulta de uma observação de uma "amiga".

Parentesis : é espantoso como a blogosfera passou a ter um lugar tão relevante na minha vida actual. E nem sei se será muito saudável !

Voltando à tal ideia : em palavras simples pode formular-se pela contraposição Ocidente/Oriente. Quem acaso siga o meu  blog não se espantará com esta questão, tal tem sido a minha insistência no tema do Dharma. Mas isso não evita que me interrogue sobre até onde é legítimo, apropriado, adequado, pertinente, etc, etc., abordar aqui estas matérias.  Em primeiro lugar, em termos "internos" : p.e. um budista é suposto não fazer proselitismo. Isto é : responde, se questionado, mas não faz missionarismo. Em segundo lugar, em termos "externos" : será que do que tenho dito (escrito) resultará algum esclarecimento útil para quem me lê ? 

Creio duro como ferro que do conhecimento das sabedorias orientais resultará um enriquecimento notável para as mentes ocidentais (ora aqui está uma boa ocasião para "vender" a minha cultura combinatória, agora à escala civilizacional...). Mas terei "comprador" ? E um blog será um meio oportuno para este fim ?

A Net passa por ser a via aberta para todas as mensagens. Mas como medir a sua eficácia em cada caso ? Pelos comentários ? E quem lê mas não se dá ao trabalho de comentar ? 

Retomando a díade Ocidente/Oriente, deixo um desafio a quem acaso me ler : digam-me (se quiserem, bastam duas ou três palavras) se acham que vale a pena continuar a ter nos meus temas o das filosofias de vida (não lhes chamo religiões  pelos motivos que estão claros no vídeo do meu post [48] ) orientais.

 

E agora mudando completemente de assunto : política. (É difícil fugir dele neste fim-de-semana...).

Tive uma interessante troca de ideias com Sofia Loureiro dos Santos (como ainda não aprendi a meter links nos posts resta-me indicar que o seu blog se chama "Defender o Quadrado" e a tal troca está nos comentários ao post "Manipulações" de 31 de Maio).

Coitada da Drª Ferreira Leite... No que ela se foi meter ! Mas merece que se lhe reconheça a coragem. Quando já tem idade para deixar os outros andarem a sacanear-se, vem a terreiro e afronta a tarefa de tentar pôr de pé um partido que não tem ponta por onde se lhe pegue. Quem tem razões para estar contente é Sócrates. E Manuel Alegre que lá vai fazendo as suas movimentações. Quanto a Mário Soares, continua de pedra e cal. E Cavaco Silva, não posso deixar de me espantar com o que ele aprendeu desde a Figueira da Foz -- esperava bem pior.

Quanto a Santana Lopes a única coisa de que gosto nele é continuar a usar a sigla PPD -- nunca consegui engolir que um partido daqueles se intitulasse PSD. É preciso não saber nada de História Política para aceitar o dislate...

Já agora uma sugestão : ponham os jovens a estudar (além do inglês e da informática)  um pouco de Ciências Políticas, a ver se, chegada a sua vez, fazem um pouco menos de asneiras que os mais velhos...

Por falar em jovens dou-me conta de que eu próprio caí na pecha que tanto censuro : mencionei mais os partidos do que os cidadãos (felizmente isso não aconteceu na tal troca de ideias que acima referi). Quando são os cidadãos que devem estar no cerne das nossas preocupações políticas. Os partidos, como todos os aparelhos, tendem a olhar para os seus próprios umbigos. As pessoas, para eles, são sobretudo votantes (a propósito : tens as quotas em dia ? estás recenseado ?), quando deveriam ser a  primeira e última razões da actividade dos estadistas e outros detentores de cargos políticos. E que tal  chamá-las a participar ? Há tanta coisa na "coisa pública" em que de mero objecto se pode passar a sujeito... Bastaria gastar um pouco da imaginação usada nas manobras de bastidores para criar espaços de reflexão e participação directa na resolução de problemas (políticos, pois então).

 

Também aqui um pouco de sabedoria oriental não faria mal nenhum. Porque, no fundo, é sempre de conhecimento que se trata. E a política exige uma subtileza que se enquadra muito bem nas filosofias do Extremo-Oriente.

Termino com esta nota sobre o conhecimento, no seu sentido mais lato. Porque ele é o alfa e o ómega da Vida.

 

publicado por Transdisciplinar às 05:27
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Sexta-feira, 30 de Maio de 2008

[48] Ainda o Dharma (6)

Na sequência da última frase do meu post [44] pareceu-me oportuno publicar este vídeo muito curto e que acho muito claro.

 

 

Se quiser ver outro vídeo sobre o Budismo pode ir ver o meu post [27]. Ou então clique aqui.

publicado por Transdisciplinar às 03:28
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Quarta-feira, 21 de Maio de 2008

[44] Ainda sobre o Dharma (5)

 

    Resolvi publicar este post para chamar a atenção para a existência do Instituto Mind and Life. Foi fundado em 1988, para assegurar a organização regular de encontros entre o Dalai Lama e cientistas ocidentais. De resto, esses encontros já vinham tendo lugar, mas um pouco ao sabor das circunstâncias. Assim, alguns dos participantes resolveram, sempre com o acordo do Dalai Lama, criar o que começou por ser o projecto Mind and Life.

       O primeiro encontro decorreu em Outubro de 1987, em Dharamsala, na Índia (cidade onde o Dalai Lama tem residência desde que se exilou). Os resultados foram de tal forma encorajadores que se partiu para a criação do Instituto.

 

 

 

        Embora tenham sido muitas as colaborações havidas para essa criação, existem dois nomes que é indispensável pôr em realce. Um é o do americano R. Adam Engle. Ele foi o primeiro Presidente do Instituto e teve a seu cargo a complicada organização logística dos encontros. O outro é o do chileno Francisco J. Varela. Doutorado em Biologia por Harvard, especializado em neurobiologia e epistemologia, trabalhando em Paris (C.N.R.S.), coube-lhe a coordenação científica dos trabalhos. Muito conhecido nos meios científicos por causa das suas publicações e dispondo de muitos contactos em várias áreas do conhecimento, ele trabalhou afincadamente para que os encontros Mind and Life fossem um sucesso, bem demonstrado pelos livros a que deram origem. Infelizmente faleceu há pouco, precocemente.

       O nome do Instituto foi escolhido cuidadosamente para designar bem a interface, o mais frutuosa possível, entre a ciência ocidental e a tradição búdica. Dada a sua natureza, não é de espantar que os primeiros encontros recoressem sobretudo a especialistas das neurociências (o "nosso" António Damásio participou num deles) e das chamadas ciências cognitivas.  Pouco a pouco os temas foram mudando e, a partir de certa altura, além dos filósofos, dos psicólogos, dos psicanalistas, dos linguistas ou dos antropólogos, encontravam-se também especialistas em astrofísica, em cosmologia ou em física quântica. No fundo, nenhuma área é dispensável quando, como disse o Dalai Lama num dos encontros, «(...) nós não aderimos ao sentido literal das palavras de Buda quando elas são refutáveis por uma prova válida».

       Aqui convirá apontar duas precisões semânticas : a primeira é búdica, a segunda é ocidental. A búdica tem a ver com a palavra , em sânscrito, dharma. O termo é altamente polissémico : tanto significa o ensinamento (o Dharma do Buda), como o conhecimento ou a sabedoria, como ainda a via, o caminho, para os alcançar. E poderíamos continuar...

       A segunda remete para um problema relativo ao francês. Com efeito, eles não têm substantivo para o nosso mente (ou o inglês mind). O equivalente francês é esprit. Existe o adjectivo mental (que, por vezes, é substantivado), mas o que é corrente é usarem a palavra esprit. Assim não podem distinguir entre mente e espírito. O que, quando está em causa o budismo, é particularmente lastimável. Voltando a citar um Lama (que, entretanto, foi "promovido" a Rimpoché -- para quem sabe o que isto significa...) : « O budismo não é materialista nem espiritulista, é realista e experimental ».

       Completo com : no budismo não há credo, nem dogma, nem Deus.

 

 

 

publicado por Transdisciplinar às 01:39
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Terça-feira, 15 de Abril de 2008

Ainda sobre o Dharma (2)

(...) nós não aderimos ao sentido literal das palavras de Buda quando elas são refutáveis por uma prova válida .


Dalai-Lama

publicado por Transdisciplinar às 19:40
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Segunda-feira, 14 de Abril de 2008

Alan Watts e o pensamento oriental

" Tauismo e zen são ambos fundados sobre uma filosofia da relatividade, mas esta filosofia não é somente especulativa. Trata-se de uma disciplina do despertar que tem como resultado fazer experimentar de  maneira permanente a sensação  da inter-relação de todas as  coisas e de todos os acontecimentos entre  si. Esta sensação é subjacente e suporta a consciência habitual que nós temos do mundo como uma colecção de  coisas diferentes e separadas -- estado de consciência que, em si mesmo, é chamado avidya (ignorância) pela filosofia búdica, porque, reparando só nas diferenças, ignora as relações das coisas entre elas. Não capta, por exemplo, que pensamento e estrutura, forma e espaço, são tão inseparáveis como o verso e o reverso, nem que o indivíduo está tão estreitamente emaranhado com o universo que um  e outro formam  um  único  corpo. "


Alan W.Watts, The Joyous Cosmology




publicado por Transdisciplinar às 23:22
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Sexta-feira, 4 de Abril de 2008

Ainda sobre o Dharma

(...) a harmonia que existe entre o dharma e o pensamento contemporâneo, a adequação profunda do buda-dharma com a ciência contemporânea. Não somente não há contradição entre a ciência tradicional do dharma -- este conhecimento do conhecimento -- e os novos paradigmas da ciência contemporânea, mas ainda há uma convergência e um encontro cada vez mais íntimos entre elas.


Lama Denis Teundroup


 

    Este dharma do Buda tratando da nossa natureza interior, do nosso ser profundo, chama-se « ciência interior ». É o nome tradicional daquilo que no Ocidente é chamado « budismo ».


Kalou Rinpoché

publicado por Transdisciplinar às 17:27
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Sexta-feira, 21 de Março de 2008

Budismo

"O budismo não é materialista nem espiritualista, é realista."

 


 

(Lama Denis Tendroupe, sobre o Dharma)

publicado por Transdisciplinar às 15:59
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Quinta-feira, 20 de Março de 2008

Máximas Búdicas

"Dá menos importância à pessoa do que ao que ela ensina."


e

"Dá menos    importância às palavras do ensinamento do que ao sentido que elas exprimem."


(Citado por Kalou Rinpoché em La voie du Bouddha)
publicado por Transdisciplinar às 18:42
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