Quinta-feira, 1 de Maio de 2008

[33] Compreensão e conceptualização

(Este post é a resposta a uma "amiga" que me perguntou como encontrar termos para designar compreensões novas.)

 

 

    A questão em causa é : perante uma nova compreensão de um problema ou de uma situação, o que  fazer para exprimi-la e transmiti-la de forma  correcta.

    O repertório lexical tem os seus limites próprios, nomeadamente no campo científico (em que não existe a liberdade poética). O que, diga-se, não quer dizer, bem pelo contrário, que não haja lugar para a imaginação. Esta é até bem necessária. Sem ela não haveria revoluções científicas nem sequer investigação digna desse nome (apenas meras aplicações).

    Mas voltemos à questão lexical. Ela não é fundamental para  a compreensão em si mesma : existe conhecimento pré-verbal (e, até, comunicação não verbal). Mas a linguagem  é muito importante para a transmissão do conhecimento. E aí entram em jogo as articulações entre significantes e significados (deixemos, por agora, de lado os referentes). Essas articulações são mais complexas do que à primeira     vista  possa parecer. Para voltar ao exemplo da poesia : ela " brinca " permanentemente com elas. Coisa que  o cientista não pode fazer. Isto é, pode (por exemplo o meu mestre Morin passa a vida a criar jogos lexicais), mas dentro dos  limites que a comunidade científica define. :

    Retomemos o problema que a minha amiga pôs . Pode ser reformulado da seguinte forma : o que ela pretende é encontrar um significante -- seja ele  uma simples  palavra, ou um sintagma mais complexo --  que corresponda ao significado  (a compreensão nova) a que ela acedeu. Ora esta operação remete para duas questões que me têm acompanhado ao longo de toda a minha carreira de investigador :  a da adequação e a da pertinência.

    Ou seja, no caso vertente : a expressão que ela escolher deve ser adequada ao "objecto" em causa (i.e. deve denotá-lo/conotá-lo   correctamente ) e pertinente, no sentido de corresponder às exigências comunicacionais da sua transmissão ou, por outras palavras,  possuir  valor  heurístico  suficiente -- mas isso levar-nos-ia para debates semânticos que seria despropositado estar a ter aqui.

    Da mesma forma, não coloco  questões de hermenêutica que se podem referir a propósito da adequação. Deixo só esta pista no ar. Como não me alongo sobre os problemas da validade  interna (que dizem só respeito à consistência do discurso) ou da validade externa (relações entre o conhecimento e o real) ; estes últimos ficam parcialmente resolvidos se se tratar acertadamente a problemática da adequação.

    Com tudo isto, acho que acabei por não responder às perguntas concretas que a  amiga me fazia !  Irritado com o computador,  acabei por fazer o gosto ao meu dedo conceptual... Mas ainda lhe deixo algumas achegas. Se quiser traduzir alguma palavra estrangeira faça-o. Ou então use mesmo a  estrangeira, nomeadamente se for numa língua franca como é hoje o inglês. Se quiser usar um sintagma mais complicado, faça-o. Mas aí atenção : se possível, evite mais de duas palavras (p.e. um substantivo e um adjectivo) ou então utilize hifenização ; ou utilize prefixos ou sufixos.

    Mas, por favor, não esqueça : adequação e pertinência !

    E por aqui me fico.

 


 

 

 

 

  


sinto-me:
publicado por Transdisciplinar às 02:54
link do post | comentar | ver comentários (5) | favorito

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.links

.tags

. todas as tags

.favorito

. [32] CULTURA COMBINATÓRI...

. [30] Conhecimento

. Ainda sobre o Dharma (2)

. Ainda sobre o Dharma

. Citando...

. FRAGMENTOS PARA UM DEBATE

. CULTURA COMBINATÓRIA (2)

. CULTURA COMBINATÓRIA (1)

.posts recentes

. [33] Compreensão e conc...

blogs SAPO

.subscrever feeds