Sexta-feira, 18 de Julho de 2008

[78] Voltando ao Dharma (5)

 

Tenho desleixado muito o Dharma, aqui. É a altura de o retomar.

Vou servir-me da parte de perguntas e respostas dum ensinamento dado, na Sorbonne, pelo Lama que actualmente é designado por Lama Denys Rimpoché. Assim, no que se segue, P designa uma pergunta e L anuncia a resposta.

A sessão de que extraio estes excertos teve por título "O Dharma do Buda, uma via de amor e de conhecimento".

 

________________________________________________

 

P : O budismo é uma filosofia ou uma religião ?

 

L : Isso depende das definições que damos aos termos filosofia e religiáo. O que entende por religião ?

 

P : A religião é geralmente fundada sobre um conjunto de crenças, de dogmas e de formas que mantêm uma relação com uma pessoa -- seja esta revelada ou imaginada -- enquanto que uma filosofia parte dum raciocínio, duma observação e daí deduz um comportamento, um caminho. Neste caso, não se lhe chama religião.

 

 

L :  Segundo a sua definição, responderei sem ambiguidade que o budismo não é uma religião, é uma filosofia.

 

P    :  É exactamente o que eu pensava !

 

 

 L :  No entanto, o problema é um pouco mais complexo. A definição que dá da religião é, em minha opinião, uma definição teísta restrita. Se se entender religião no sentido etimológico de o que nos une, o budismo é uma via que nos liga à natureza pura da mente ou, numa formulação diferente, o que nos liga à realidade essencial. Se o entendermos assim, é uma religião : é uma questão de definição.

 

P :  Qual é a definição da espiritualidade no budismo ?

 

 

 L  :  O termo espiritualidade não é verdadeiramente uma expressão tradicional do  dharma : não existe nem em sânscrito nem em tibetano. É de facto uma noção muito ocidental. Mas para responder ao espírito da sua pergunta, a atitude espiritual, na perspectiva budista, é a dum trabalho que se faz sobre si mesmo a partir das suas experiências e das situações com que nos defrontamos -- trabalho que permite eliminar todas as formas de condicionamentos, de ilusões e de sofrimentos do espírito egocentrado. A espiritulidade é a saída da confusão do ego.

 

 ________________________________________-

 

 P.S. -- Desculpem o desconchavo da impressão. O computador hoje, mais ainda do que habitualmente, teimou em não me obedecer. Para não ficarmos todos a ver navios, nem eu perder mais umas horas com ajustamentos, vai assim mesmo. Desculpem...

 

publicado por Transdisciplinar às 05:31
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2 comentários:
De outraidade a 19 de Julho de 2008 às 12:00
Tudo seria mais simples se soubessemos escutar o nosso ego?


De Transdisciplinar a 19 de Julho de 2008 às 13:41
Eu preferiria dizer escutar o nosso eu, ou a nossa mente, ou o nosso interior.
Porque no Dharma ( ao contrário de na psicanálise, em que o ego é valorizado ) a palavra ego vem associada a noções negativas. Por exemplo, tudo o que é egocentrado deve ser abandonado . Valoriza-se o " não-ego ". Cito-lhe uma frase : « L'amour véritable va de pair avec un effacement de l'ego , une qualité d'abnégation , de don de soi , d'abandon et d'ouverture .»
Não devo ter sido de grande ajuda. Porque eu próprio tenho dificuldade em lidar com a noção de ego no budismo, já que me sito dividido entre ela e a minha formação psicanalítica.


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