Sábado, 14 de Junho de 2008

[62] Ainda sobre o Dharma (9)

    Ontem estava imparável. Foram 3 vídeos [ que me deram um trabalhão, mais à equipa do SAPO ] e depois retomei Pema Chödrön. Mas só hoje acabei...

     Como prometido, vou tratar do tema "tomar refúgio".

 

       Hoje vou falar do refúgio nas três jóias -- o Buda, o dharma e a sangha -- e do que isso significa verdadeiramente.

       [ Há uma divergência entre os diversos autores. Há quem escreva o sangha e quem prefira a sangha. Em inglês, como é óbvio, o problema não se põe. Mas como estou a traduzir do francês -- e tenho já escolhidos, para citar, outros textos franceses -- a questão coloca-se. Vou seguir o critério de usar a opção da versão que, em cada momento, esteja a citar, embora pessoalmente prefira a, já que a tradução mais simples do sânscrito seja a comunidade. ]

       (...)Pensei sempre que a expressão «procurar refúgio» era muito surpreendente porque tem qualquer coisa de téista, de dualista, chama uma dependência : «procurar refúgio» junto de qualquer coisa. (...)

[Ora] a ideia de base do refúgio é que entre o nascimento e a morte estamos sós. Por conseguinte : procurar refúgio  no Buda, no dharma e na sangha não significa que encontraremos consolação neles, como uma criança a encontraria em papá-mamã ; é antes a expressão fundamental duma aspiração para saltar do ninho, quer nos sintamos prontos a fazê-lo quer não, a transpor os seus rituais de passagem e a ser um adulto que não tem necessidade de agarrar a mão duma outra pessoa. (...)

       (...) O facto de procurar refúgio é o meio pelo qual começamos a cultivar a abertura e a bondade que nos permitem de ser cada vez mais autónomos.

       (...) Noutros termos, o único verdadeiro obstáculo é a ignorância (...) a recusa de olhar o que fica em suspenso.

       (...) não falamos de encontrar consolação no Buda ,o dharma e a sangha. (:::) O Buda é o despertado, e nós também somos o Buda. É simples. Nós somos o Buda. (...)  Eis o que significa ser um ser humano (...).

       Tradicionalmente, procurar refúgio no dharma, é encontrar refúgio nos ensinamentos do Buda..Ora bem, os ensinamentos do Buda dizem : Largue-de-mão e abra-se ao seu mundo.(...) Numa perspectiva alargada, o dharma significa também toda a sua vida. (...) Aplicamo-los [ os ensinamentos do Buda ] na maneira de entrar em relação com outrem, nas situações da vida, na sua relação com os nossos pensamentos, as nossas emoções. (...).

       Procurar refúgio na sangha significa procurar refúgio na fraternidade (que compreende tanto as mulheres como os homens) daqueles que se empenharam em retirar a sua "armadura" [que se entreajudam para o fazer], abstendo-se de encorejar a sua fraqueza ou a sua tendência a conservá-la.

       Prrocurar refúgio nas três jóias não tem nada a ver com refugiar-se, no sentido corrente do termo. (...).

       A prática quotidiana consiste simplesmente em fazer nascer uma aceitação completa de todas as situações e emoções e de todos os seres, assim como uma abertura total a tudo isto ; trata-se de fazer a experiência de todas as coisas totalmente, sem reservas nem bloqueamentos, de modo que não nos retiramos, não nos centramos nunca sobre nós próprios,

        É por esta razão que praticamos.

    

publicado por Transdisciplinar às 13:11
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9 comentários:
De outraidade a 14 de Junho de 2008 às 16:37
Transbordante, transcendente, transformante, translúcido, transparente...como "procurar refúgio" num encontro de tranquilidade e recolhimento com a verdade serena da vida?
Essa verdade que procuramos incessantemente numa qualquer Força extra sensorial que, afinal, somos nós mesmos num estádio metafísico e que podemos atingir através da meditação?
Não sei se as minhas questões são desconexas mas foi o que senti depois de ler o seu post.


De Transdisciplinar a 14 de Junho de 2008 às 17:01
Não é nada desconexa e fico felicíssimo por a Pema Chödrön lhe provocar essa reacções.
(Eu já não reajo assim porque, modéstia à parte, já integrei estas noções na minha vida. Pelo menos assim o espero...)
Mas fico sempre muito feliz por ver outras pessoas serem sensíveis como a OUTRAIDADE o é.
Usando uma saudação búdica : !!! Que tudo seja auspicioso!!!


De Transdisciplinar a 14 de Junho de 2008 às 17:07
Já agora . Reparou que usou sistematicamente o trans " de que eu gosto tanto ?...Ou fez de propósito ?


De Transdisciplinar a 14 de Junho de 2008 às 17:42
OUTRAIDADE ,
fiquei tão contente com a sua reacção que não paro de lhe escrever.
Uma sugestão não búdica : recue no meu blog até um post de 17 de Março (chama-se simplesmente "Citando..." ) e leia-o. A sabedoria não está só no budismo...


De outraidade a 14 de Junho de 2008 às 23:34
Apesar de ter repetido o "trans" intencionalmente, foram as palavras que transmitiam mais fielmente o meu sentir. Fui ver o post que me aconselhou de Março. O "silêncio" é de facto um encontro quando sabemos estar nele.


De Transdisciplinar a 15 de Junho de 2008 às 01:18
Depois de ter feito a pergunta sobre se tinha sido de propósito, senti-me completamente estúpido por sequer a fazer. Mas como não sei apagar um comentário, ao contrário dum post que se pode sempre editar, lá ficou a estupidez...
Quanto ao post de Março (que é uma pequena parte de um texto que encontrei em S. Francisco em 1968 e que guardo desde então -- está na parede da minha biblioteca) o que me agrada mais é o final :" Strive to be happy ". Isto num texto do séc.XVII e numa igreja cristã. Muito ecuménico (e, em termos da Carta da Arrábida, muito transdisciplinar...).
Não sei se viu o post que escrevi logo a seguir a este em que estou a responder-lhe. (Habituei-me de tal forma aos seus comentários, sempre tão interessados e tão argutos que, agora . estranho sempre quando não comenta.) Qualquer dia tenho que ir a um psiqiatra porque devo estar a ficar comentário-dependente .


De mdsol a 15 de Junho de 2008 às 16:23
Vir aqui é mesmo interessante! Vou ser franca, já tinha sentido este "procurar refúgio" que aqui tão bem explicitado, mas nunca o tinha pensado, muito menos verbalizado. Não estou a ser cartesiana , estou a colocar-me a um nível abaixo da compreensão que permite verbalizar as "coisas"...
(meto-me em cada uma.... e a escrever de carreirinha...)
:-)


De mdsol a 15 de Junho de 2008 às 16:25
É o que dá escrever de carreirinha!
Deve ler-se "que aqui está tão bem explicitado"
:-)


De Transdisciplinar a 15 de Junho de 2008 às 17:24
Devo confessar que é muito agradável ver que o trabalho que se tem a procurar frases apropriada para citar não cai em saco roto e proporciona reacções como as que transmitiu. Só por isso já vai um muito obrigado.
Achei muito interessante dizer que já tinha SENTIDO este "procurar refúgio", sem pensar ou verbalizar, Porque o mais importante é mesmo SENTIR. O resto, como diz, é "um nível abaixo". É isso mesmo. E vem por acréscimo.
:))) e hoje atrevo-me, um bj .


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