Segunda-feira, 5 de Janeiro de 2009

{178} Herberto Helder (8)

Do último livro do Herberto :

 

Herberto Helder - A faca não corta o fogo

Será que Deus não consegue compreender a linguagem dos artesãos?

Nem música nem cantaria.

Foi-se ver no livro: de um certo ponto de vista de:

terror sentido beleza

acontecera sempre o mesmo - quebram-se os selos aparecem

os prodígios

a puta escarlate ao meio dos cornos da besta

máquinas fatais, abismos, multiplicação de luas

- o inferno! alguém disse: afastem de mim a inocência

eu falo o idioma demoníaco.

Há imagens que se percebem: a do leão às escuras bebendo água

gelada, a imagem de uma pessoa com a mão gloriosa nas chamas

não pára de gritar mas não tira a mão do fogo

compreende-se? como se compreende?

é uma espécie de força absoluta. Há quem pinte cavaleiros luminosos

montados em cavalos azuis. Vão para a guerra, vão matar,

roubar, violar, Deus olha.

Sangue. Quais os problemas? Vermelho e azul, distribuição de formas, a beleza

e os seus segredos - o número, a razão do número

que tudo seja perfeito em coral e cobalto.

O caos nunca impediu nada, foi sempre um alimento inebriante.

O homem não é uma criatura entre mal e bem: falava-se com Deus

porque Deus era potência, Deus era unidade rítmica.

A mão sobre as coisas - cada coisa tem a sua aura, cada animal tem

a sua aura, como se pastoreiam as auras!

em transe: eu sou a coisa. Acabou.

Sento-me a conversar com Deus: palavra, música, martelo

uma equação: conversa de ida e volta.

Depois há gente que fala entre si, depouis é o medo, depois é o delírio.

Escuta a breve canção dentro de ti. Que diz ela?

Não move as coisas com as suas auras, nem tu nem a tua canção

pertencem ao mundo cheio, alma que sopra.

Nada se liga entre si, Deus não se debruça  na canção; destroça

a cadência

- o demoníaco. Já não se vê um degrau

arrancar de outro degrau pelas lentas escadarias de mármore ao fundo.

A canção abandonou o seu espaço contínuo,

Que se pode fazer? - Apenas um encontro de objectos; um degrau, outro e outro degraus onde ninguém assenta o pé

e depois o outro pé - por onde se não sobe para assistir ao braço que torcendo

laçasse o corpo num umbigo incandescente, por onde ninguém

sobe para sentar-se ao órgão

e discutir em música as proporções? Aquele que disse:

eu tenho a temperatura de Deus - era um louco meteorológico.

Mas se afinal se entende que numa resposta

se oculta uma pergunta do mundo, mas

se afinal a substância

de alguém que pôs a mão no fogo é igual à substância do fogo

enquanto grita. A substância de um homem e de uma estrela; a mesma.

O poder de criar a canção, isso.

Bato na rosácea com o martelo

o rosto onde bate a rosácea roda voltado para cima -

publicado por Transdisciplinar às 04:05
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8 comentários:
De zeromusicas a 5 de Janeiro de 2009 às 12:32

esta era de facto uma das palavras laterais de maoir realce

HERBERTO HELDER ,


De Transdisciplinar a 5 de Janeiro de 2009 às 18:19
Estou cansado (dormi pouco e mal).
Tenho três comentários teus para responder (um deles com uma nova "identidade"...). Não sei por onde "pegar". Para continuarmos a comunicar(se é isso quue queres... )
escolhe uma identidade e um endereço -- únicos ! De outra forma não "jogo"...
E agora vou rever os teus coms. e responder.
:)))


De Transdisciplinar a 5 de Janeiro de 2009 às 18:35
O Herberto é uma pessoa muito secreta ! Mesmo jantando com ele sinto que ele não se deixa conhecer...


De ~pi a 5 de Janeiro de 2009 às 20:08

uiiiiii ( e não entendes muito bem is-so!!?

não é que não se deixe talvez não possa nem queira nem ...saiba...?! sei-lá, eu entendo o que não entendo,


De mdsol a 6 de Janeiro de 2009 às 15:45
Poderoso!
Um abraço
:))


De Transdisciplinar a 6 de Janeiro de 2009 às 20:14
Bem dito !
Abraço
:)))


De outraidade a 6 de Janeiro de 2009 às 21:31
A substância, o poder de ser, perguntas nem sempre satisfeitas com as respostas. Será que Deus entende a sua criação?
Mais uma vez obrigada por este Herberto.


De Transdisciplinar a 7 de Janeiro de 2009 às 00:19
De nada, de nada!
Como sempre comentários certeiros...


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