Quinta-feira, 15 de Maio de 2008

[43] CULT. COMBINAT. (6)

 [NOTA : ao passar este texto do programa em que inicialmente o escrevi para aqui resultaram infrutíferas todas as tentativas, muitas, para conservar devidamente os dois tamanhos de letras que utilizei (texto principal e notas). Além disso, ocorreram mudanças de linha fora de propósito, perda de parágrafos, etc.. Cansado de tantos insucessos, resolvi publicar o texto assim mesmo. Peço ao leitor a paciência de imaginar como ele seria sem estes percalços.]

 

 

 (Continuação) 

 

 

É a altura de retomar o folhetim. Hoje vou relacionar a C.C. com uma noção central nas várias vertentes das Ciências Sociais e Humanas : a de aprendizagem. Mas antes uma advertência.

[Como não sei meter notas de rodapé nos textos do computador, vou utilizar, como estou a fazer neste  momento, notas entre [ ] e em letra mais pequena, intercaladas no próprio texto principal.]

Se recuarem até ao p. [32] : C.C. (3) [no folhetim, vou passar a designar os posts simplesmente por p. -- creio que não haverá confusão com página, também designada habitualmente por p. , porque o contexto se encarregará de a evitar ] verão que nele refiro dois exemplos de questões em que se pode aplicar o conceito de C.C. : a educação e as migrações. É óbvio que as combinatórias culturais em causa nas duas situações não são idênticas. A diferença resulta essencialmente do grau de formalização dos dois processos, muito grande, comparativamente, no caso do ensino escolar e muito escasso (mesmo quando se recorre a aulas de português para estrangeiros) no caso da combinatória cultural dos imigrantes. 

.[Aqui não resisto a indicar um livro seminal, que trata da controvérsia entre dois gigantes: PIAGET e CHOMSKY. A referência é Centre Royaumont pour une science de l’homme, Théories du langage, théories de l’apprentissage.]

 

 

Aprendizagem, portanto. O que traz como consequência que, ao falar de CC. CC. se não pode esquecer tudo aquilo que se sabe acerca dos mecanismos da aprendizagem. Dir-me-ão : porquê, então, usar um conceito diferente ? [Sobre a noção de aculturação já me expliquei brevemente no C.C.(2). O que não quer dizer que não volte a ela mais adiante} Porque é necessário não perder de vista o carácter muito abrangente e sistémico da noção de cultura : trata-se de um “conjunto ligado” de maneiras de pensar, sentir e agir.

 

 

 

Para dar um exemplo dessa abrangência, podemos recorrer de novo à temática da educação. Com efeito é frequente, quando se fala dos mecanismos de ensino/aprendizagem, recorrer-se, no calão académico, ao "sistema KSA" (entenda-se knowledge, skills and attitudes). Por aqui se vê que, se o processo educativo faz certamente parte do sistema cultural, este é mais vasto do que aquele e bastante mais complexo.  

 

De resto, a noção de cultura, neste sentido antropo-sociológico do termo, já entrou na linguagem corrente. Veja-se, p. e., a forma como neste momento se fala de “cultura de empresa” [embora, em rigor, nesse caso, se devesse falar de sub-cultura e não de cultura -- mas deixemos essa distinção para outra ocasião]. E variados textos sobre educação, nomeadamente quando abordam problemáticas ligadas às comunidades migrantes ou a outras minorias étnicas, referem-se ao multiculturalismo e/ou ao interculturalismo, envolvendo, quer a cultura nesse sentido, quer, como não podia deixar de ser, toda a vasta gama de questões relativas à aprendizagem, para as quais hoje chamei a atenção.

 

Recue-se até à socialização infantil. Ela, que começa ao nascer, é desde o início uma combinatória cultural. De início com os pais ou a família mais próxima, depois com a creche, o infantário, o pré-escolar, a escola (não me estou a esquecer de quem diz que a escola serve não para aprender mas sim para desaprender…) os resultados vão sendo sempre múltiplos estados de C.C., em que vão variando os factores em jogo no processo. Estes, como é óbvio, não são só culturais. Mas que estes estão sempre presentes lá isso estão. E formam uma combinatória porque são sistémicos.

 

Terminando, por hoje. Todo o nosso quotidiano está recheado de combinatórias. A maior parte das vezes são micro. Mas nem sempre assim é.

  

 

(Continua)

 

 

 


 

publicado por Transdisciplinar às 05:52
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publicado por Transdisciplinar às 05:52
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4 comentários:
De mariadosol a 16 de Maio de 2008 às 23:29
Estive ausente uns dias, mas volto para acompanhar com interesse o que escreve.
:)


De Transdisciplinar a 17 de Maio de 2008 às 00:16
Obrigado pela visita.
:)


De Sofia Loureiro dos Santos a 22 de Maio de 2008 às 12:22
Não será a aprendizagem, ela própria, um resultado aditivo e de interligação, exactamente como a socialização e a integração cultural? Ou seja, não será mais ou menos o mesmo conceito, o de cultura combinatória e o de aprendizagem?


De Transdisciplinar a 22 de Maio de 2008 às 20:14
Um obrigado pela forma como se dá ao trabalho de comentar os meus posts ,
Quanto à sua segunda pergunta, a resposta já está contida no próprio post .
Quanto à primeira, tem toda a razão quanto ao carácter aditivo da aprendizagem. Que também existe na C.C .. Mas esta implica igualmente uma componente substitutiva que não é óbvia na noção de aprendizagem.
:)


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